Consumir notícias é suficiente para se manter atualizado no marketing?
- Ela Explica
- há 6 dias
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Este artigo discute se consumir notícias é suficiente para se manter atualizado no marketing, explorando excesso de informação, sobrecarga cognitiva, criatividade, IA e metodologia analítica.

A ineficiência do excesso de informação no marketing
A desinformação na era digital não ocorre pela falta de acesso, mas pela dificuldade de validação. Somos bombardeados com informações a cada minuto.
Falando apenas de redes sociais, estima-se que mais de 1 bilhão de posts sejam feitos por dia.
É impossível acompanhar cada tendência.
É preciso selecionar a fonte, o formato e o segmento da informação para podermos analisá-la, construir repertório e aplicar o que faz sentido à nossa estratégia.
Quando começamos a fazer isso, nos deparamos com novos desafios:
análise baseada em opinião
estética confundida com estratégia
moralização de campanha
leitura sem contexto
julgamento sem hipótese
análises patrocinadas
repetição de conteúdo
obsolescência
Como ampliar o repertório, aprofundar o conhecimento e acompanhar o timing do mercado?
Podemos começar com dois passos: escolha de fontes confiáveis e metodologia para analisar a informação.
Quando o foco é a expansão de repertório para criação, seja de peças publicitárias ou de estratégias de marketing, não basta ler o que está escrito, é preciso reconhecer aquilo que pode servir aos seus objetivos.
Tal habilidade analítica precisa ser exercitada para que tenhamos a capacidade de criar e inovar em nossas comunicações.
Quantidade, qualidade e rentabilidade
Quantas vezes nos deparamos com newsletters repletas de informação, portais de notícias com mais matérias do que damos conta de ler e, quando queremos saber a fundo sobre um case, uma pesquisa ou tendência de mercado, temos que ir muito além de outras fontes, porque o conteúdo está pautado apenas em materiais de assessoria de imprensa, é um conteúdo comercial ou ainda uma tradução quase palavra por palavra de portais estrangeiros.
Afinal, é preciso manter o volume de publicações para ser relevante para os mecanismos de busca.
Falando em mecanismos de busca, há uma certa homogeneização do conteúdo para que ele se encaixe nos padrões das plataformas e possa ser encontrado.
Com o uso excessivo da IA, até mesmo o estilo de escrita está ficando padronizado: os mesmos jargões, expressões e analogias.
Por outro lado, realmente consumiríamos conteúdos mais longos e aprofundados em escala suficiente para suprir as necessidades do criador de conteúdo que precisa monetizar com o trabalho dele?
Outras questões se fazem igualmente pertinentes:
Apenas consumir notícias rápidas tem sido o suficiente para ampliar o seu repertório? Você de fato armazena a informação ou isso apenas gera um desgaste cognitivo?
Tal qual o excesso de abas de pesquisa em aberto em um computador, o excesso de informação pode “travar o seu sistema”, deixar seu fluxo de trabalho mais lento e impedir que você use sua memória de trabalho para abrir um “aplicativo de criação”.
O ócio é fundamental para a criação, mas com a crescente sensação de que “estamos ficando para trás”, quem consegue parar e se permitir “fazer nada”, “consumir nada”?
A pressão para acompanhar a velocidade sobre-humana da informação digital pode diminuir não apenas nossa produtividade, mas também a nossa criatividade.
Essa constatação não é algo da minha pura e simples observação de mundo, tampouco é uma exclusividade dos profissionais de marketing.
O conceito de Sobrecarga Informacional (SI) foi abordado cientificamente pela primeira vez em 1956 pelo psicólogo George Miller, ganhando maior destaque com o processo de digitalização.
Com a pandemia da Covid-19, em 2020, o acesso à tecnologia e aos canais digitais avançou significativamente e, com ele, a necessidade de não apenas consumir, mas também filtrar e validar informações.
Bawden e Robinson (2020) levantaram algumas das consequências da SI; entre elas estão as relacionadas à saúde, visto que a SI pode desencadear uma série de manifestações emocionais, tais como ansiedade, incerteza, estresse, desmotivação, medo e fadiga mental.
Concordemos que tais emoções não nos ajudam a criar ou construir repertório.
Também se engana quem acredita que a SI é gerada apenas pela quantidade de informação. A qualidade, ou a incerteza sobre a qualidade, também impactam nossas capacidades cognitivas.
Segundo o artigo “Contribuições da teoria da carga cognitiva para a compreensão da sobrecarga informacional: uma revisão de literatura”, publicado na RDBCI – Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação em 2024, cada vez que o número de informações aumenta, a identificação de informações úteis, precisas, confiáveis e de qualidade se torna mais difícil de recuperar e distinguir.
Esse cenário social afeta o comportamento de consumo, a atenção e, por consequência, as demandas dos profissionais de marketing e publicidade.
Fechamos essa parte do texto com a reflexão:
Qualidade ou quantidade, o que é mais pertinente ao processo criativo?
A IA como heroína criativa
Tal qual um herói em um cavalo branco no final de uma história medieval, chega o acesso à IA generativa.
Nesse momento, você pode estar pensando: mas a IA inspirou e ainda inspira fortes controvérsias no meio criativo.
Digo que heróis medievais, se repararmos bem, também.
A Inteligência Artificial generativa, com todo o seu potencial de pesquisa, estratégia, criação de textos, imagens e vídeos, análise de dados e informações complexas, faz com que se pense que ela pode melhorar meu desempenho e poupar meu tempo. Isso vai mudar o jogo.
E, de fato, mudou.
Sem me ater muito aos prós e contras dessa tecnologia, vou direto ao questionamento pertinente ao assunto abordado aqui:
Você já sentiu um mal-estar, indecisão ou ansiedade por não conseguir processar a informação que a IA te trouxe em segundos? Já delegou mais do que devia para a IA e percebeu uma certa “preguiça cognitiva” se instaurando?
Novamente, temos acesso a uma ferramenta poderosíssima que nos permite entregar versões melhores do nosso trabalho, entretanto, sem repertório e metodologia criativa, nos permite chegar, no máximo, a um resultado mediano.
Por que a IA “responde diferente para pessoas diferentes”?
É preciso saber fazer as perguntas, e parte disso tem a ver com o contexto que você entrega para a ferramenta.
Por isso, tenho trabalhado no desenvolvimento de palestras e conteúdos nos mais diversos formatos que visam fortalecer o humano por trás da tecnologia.
Metodologia
A criatividade, ao contrário do que muitos pensam, não se trata de um dom inato.
Apesar de reconhecer que há pessoas que têm uma maior afinidade com a criatividade, esta é uma habilidade treinável.
E quando falo criatividade, é no sentido abrangente que envolve estratégias, soluções, produtos, comunicação, entre outros.
É importante entender como você absorve, armazena e aplica o seu conhecimento.
A curiosidade sempre fez parte do meu cotidiano, então desenvolvi uma metodologia para analisar cases de sucesso e absorver a informação relevante para então compartilhar.
Esse processo foi uma construção natural ao longo dos anos.
Analisando campanhas, estratégias de marca e decisões criativas, percebi que meu processo raramente começava pela ideia em si. Ele começava pela investigação.
Antes de pensar em soluções, eu precisava compreender o contexto, identificar padrões, observar escolhas e levantar hipóteses sobre intenções e consequências.
Só muito tempo depois percebi que havia ali um método implícito.
A prática recorrente revelou um padrão: toda análise passava, consciente ou inconscientemente, por etapas de observação, contextualização, interpretação e reconstrução estratégica.
O que antes era apenas um jeito pessoal de pensar tornou-se, com o tempo, um processo replicável. Foi a partir dessa consciência que surgiu a metodologia C.R.I.M.E. (Contexto, Raciocínio, Intenção, Método, Evidência).
A metodologia C.R.I.M.E. organiza o pensamento criativo a partir da lógica investigativa: olhar para a cena, identificar evidências, compreender o contexto, decifrar o raciocínio estratégico e, então, extrair aprendizados aplicáveis.
Formular um método replicável tem me poupado esforço e me livrado de bloqueios criativos; por isso, escolhi dividi-lo com vocês, não apenas embutido no meu conteúdo, mas revelado como um processo que você também pode utilizar.

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